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Crise no autismo: como pais e professores podem ajudar a criança a se regular?


Uma criança autista começa a chorar, gritar, tampar os ouvidos, jogar objetos no chão ou tentar fugir. Em outra situação, pode acontecer exatamente o contrário: ela se cala, se afasta, parece não responder aos chamados ou procura ficar sozinha.

Para quem está por perto, esses momentos podem ser difíceis de compreender. Para a criança, entretanto, uma crise pode representar um estado de intensa sobrecarga.

Por isso, antes de pensar em “como fazer a criança se acalmar?”, talvez seja mais importante perguntar:

“O que essa criança está tentando suportar, comunicar ou evitar neste momento?”

Essa mudança de perspectiva é fundamental.

Uma crise não deve ser encarada simplesmente como desobediência, birra ou falta de limites. Em muitas situações, ela pode estar relacionada a uma combinação de fatores sensoriais, emocionais, comunicativos e ambientais.

O objetivo do adulto não é “vencer” a crise. É garantir segurança, reduzir a sobrecarga e ajudar a criança a recuperar gradualmente sua organização.

O que pode desencadear uma crise no autismo?

Cada criança é única. Por isso, não existe uma lista universal de gatilhos.

Algumas crianças podem apresentar maior sensibilidade a sons, luzes, cheiros, texturas ou contato físico. Outras podem ter dificuldade diante de mudanças inesperadas, espera, frustração, excesso de demandas ou alterações na rotina.

Também é possível que uma criança tenha dificuldade para comunicar que está cansada, com fome, com dor, assustada ou simplesmente precisando de uma pausa.

Imagine, por exemplo, uma sala de aula com muitas crianças falando ao mesmo tempo, cadeiras sendo arrastadas, atividades diferentes acontecendo e uma mudança inesperada na rotina.

Para algumas crianças, isso será apenas parte do ambiente.

Para uma criança com maior sensibilidade a determinados estímulos, pode representar uma quantidade de informações difícil de processar.

O Ministério da Saúde destaca justamente a sobrecarga de tarefas, as mudanças inesperadas na rotina e a superestimulação sensorial entre os fatores que podem agravar crises em pessoas com TEA.

Isso significa que observar o contexto é tão importante quanto observar o comportamento.

Meltdown e shutdown: duas formas diferentes de sobrecarga

Nem toda crise se manifesta da mesma maneira.

O termo meltdown é frequentemente utilizado para descrever uma manifestação mais externa da sobrecarga. A criança pode chorar, gritar, apresentar agitação, jogar objetos, tentar fugir ou apresentar comportamentos de autoagressão.

Já o shutdown costuma ser mais silencioso.

A criança pode se afastar, ficar imóvel, reduzir ou interromper a comunicação, parecer “desligada” ou demonstrar pouca resposta aos estímulos ao redor.

É importante lembrar que esses termos não são diagnósticos independentes. Eles são utilizados para descrever diferentes manifestações de sobrecarga.

E existe um ponto essencial:

uma criança que está em crise pode não conseguir responder da maneira que normalmente responderia.

Por isso, exigir naquele momento habilidades que ela utiliza normalmente pode aumentar ainda mais a sobrecarga.

O primeiro passo: segurança

Durante uma crise, a prioridade deve ser a segurança da criança e das pessoas ao redor.

Observe o ambiente e procure reduzir riscos.

Se houver objetos que possam machucar, afaste-os. Se possível, conduza a criança para um espaço mais tranquilo e seguro, sem transformar esse deslocamento em uma disputa.

Também é importante observar se existe risco de fuga, queda, autoagressão ou agressão a outras pessoas.

Quando existe risco iminente e não é possível garantir a segurança, a situação deixa de ser apenas uma questão pedagógica ou comportamental e pode exigir atendimento de urgência.

No Brasil, o Ministério da Saúde orienta procurar serviços de urgência em situações que necessitem atendimento imediato e indica o SAMU 192 em situações de crise aguda com risco à pessoa.

Durante a crise: menos estímulos pode significar mais acolhimento

Um erro comum é imaginar que, diante de uma criança agitada, precisamos falar mais.

“Calma.”

“Para.”

“Olha para mim.”

“Respira.”

“Você precisa se controlar.”

“Por que você está fazendo isso?”

Embora essas frases possam parecer naturais para um adulto, muitas informações verbais durante um momento de grande sobrecarga podem dificultar ainda mais a organização da criança.

Em vez disso, procure:

  • reduzir ruídos;
  • diminuir estímulos visuais quando possível;
  • afastar pessoas que não precisam estar presentes;
  • falar com voz calma;
  • utilizar frases curtas;
  • oferecer espaço físico;
  • evitar perguntas sucessivas;
  • respeitar a necessidade de afastamento;
  • evitar contato físico sem necessidade ou sem que seja apropriado para aquela criança.

Uma frase simples como “Eu estou aqui” pode ser mais útil naquele momento do que uma longa explicação.

Outra possibilidade é:

“Vamos para um lugar mais tranquilo.”

Ou:

“Você está seguro.”

A comunicação deve ser adaptada àquilo que a criança consegue processar naquele momento.

Não force contato visual

Esse é um cuidado especialmente importante.

Durante uma crise, exigir que a criança olhe para o adulto pode acrescentar uma demanda desnecessária.

O contato visual não deve ser tratado como condição para que a criança seja ouvida ou acolhida.

O mais importante é transmitir segurança e disponibilidade.

Se a criança prefere olhar para outro lugar, fechar os olhos, cobrir os ouvidos ou permanecer mais distante, essas manifestações devem ser consideradas dentro do contexto individual dela.

E se a criança não conseguir falar?

Nem toda criança consegue utilizar a fala para comunicar o que precisa, especialmente em momentos de grande estresse.

Por isso, recursos de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) podem ser importantes para algumas crianças.

Imagens, cartões, gestos, símbolos ou dispositivos de comunicação podem ajudar a expressar necessidades como:

  • “quero sair”;
  • “está muito barulho”;
  • “quero água”;
  • “preciso de ajuda”;
  • “quero ficar sozinho”;
  • “não quero”;
  • “estou com dor”.

A comunicação não deve ser entendida apenas como fala.

Quando uma criança possui uma forma funcional de comunicar necessidades, ela pode ter mais possibilidades de participar, pedir ajuda e demonstrar desconforto.

O que pais e professores devem evitar?

Durante uma crise, algumas atitudes podem aumentar a sobrecarga.

Evite:

Gritar ou elevar o tom de voz.
O aumento do volume pode acrescentar estímulos justamente quando a criança já está sobrecarregada.

Ameaçar ou punir.
A crise não é o momento adequado para uma disputa de autoridade.

Fazer sermões.
Explicações longas podem ser difíceis de processar durante um episódio de intensa desorganização.

Fazer muitas perguntas.
“Por que você fez isso?”, “O que aconteceu?”, “Você não sabe que não pode?” podem esperar.

Forçar contato físico.
Nem toda criança tolera toque quando está sobrecarregada.

Cercar a criança.
Muitas pessoas falando ao mesmo tempo podem aumentar a sensação de pressão.

Exigir que ela se acalme imediatamente.
A regulação não acontece simplesmente porque o adulto ordenou.

Interpretar automaticamente a crise como manipulação.
O comportamento precisa ser compreendido dentro do contexto em que aconteceu.

Depois da crise: não é hora de dar uma bronca

Quando a crise termina, a criança pode continuar cansada ou precisar de algum tempo para se recuperar.

Por isso, o momento imediatamente posterior também merece atenção.

Em vez de começar com:

“Você viu o que fez?”

“Isso não pode acontecer.”

“Você precisa aprender a se controlar.”

Primeiro, permita que a criança se reorganize.

Depois, quando estiver novamente disponível para interação, pais e professores podem investigar o episódio com calma.

O que aconteceu antes da crise?

Houve alguma mudança na rotina?

A atividade estava acima do nível de dificuldade naquele momento?

Havia muito barulho?

A criança tentou comunicar alguma coisa antes?

Quais sinais apareceram antes da crise?

O que ajudou?

O que piorou?

Essas perguntas transformam um episódio difícil em uma oportunidade de aprendizagem para os adultos.

Observe os sinais que aparecem antes da crise

Muitas vezes, a crise não começa quando a criança grita ou chora.

Existem sinais anteriores.

Ela pode começar a andar de um lado para outro, colocar as mãos nos ouvidos, repetir determinadas palavras, ficar mais agitada, afastar-se das pessoas, recusar atividades, aumentar comportamentos repetitivos ou apresentar mudanças na comunicação.

Esses sinais podem funcionar como indicadores de que a criança está chegando ao seu limite de tolerância.

Aprender a reconhecê-los permite que o adulto intervenha antes que a sobrecarga aumente.

Talvez seja possível diminuir a atividade, oferecer uma pausa, reduzir o barulho, mudar de ambiente ou utilizar um recurso de comunicação.

O objetivo não é evitar todas as crises — algo que nem sempre é possível.

É compreender melhor a criança e reduzir situações previsíveis de sobrecarga quando isso estiver ao alcance dos adultos.

A importância de uma rotina previsível

Para muitas crianças, saber o que vai acontecer pode facilitar a participação e diminuir a ansiedade diante das transições.

Na escola, recursos como:

  • rotina visual;
  • antecipação de mudanças;
  • sinalização do início e do fim das atividades;
  • instruções objetivas;
  • organização do espaço;
  • pausas planejadas;

podem ajudar a tornar o ambiente mais previsível.

A Academia Americana de Pediatria destaca a importância de ambientes estruturados, rotinas previsíveis e recursos visuais para ajudar crianças autistas a anteciparem transições e participarem das atividades.

Mas, novamente, não existe uma estratégia que funcione da mesma forma para todas as crianças.

Individualização é indispensável.

Pais e professores precisam trabalhar juntos

Uma criança não vive em ambientes isolados.

Ela pode apresentar determinados sinais em casa e outros na escola. Pode tolerar determinado estímulo pela manhã e demonstrar maior dificuldade no final do dia. Pode ter uma forma específica de pedir ajuda que nem todos os adultos conhecem.

Por isso, a comunicação entre família e escola é tão importante.

Compartilhar informações como:

“Quando ela coloca as mãos nos ouvidos, geralmente está incomodada com o barulho.”

ou:

“Quando começa a repetir essa palavra, normalmente precisa de uma pausa.”

pode ajudar outros adultos a compreenderem melhor aquela criança.

A construção de estratégias individualizadas, com participação da família e dos profissionais envolvidos, é recomendada justamente porque as necessidades de cada pessoa com TEA podem ser diferentes.

Regular não é controlar

Talvez essa seja a principal mensagem para levar deste artigo.

Quando falamos em regulação emocional, não estamos falando em ensinar a criança a esconder aquilo que sente.

Também não significa exigir que ela permaneça quieta, sorrindo ou obedecendo enquanto está sobrecarregada.

A regulação envolve aprender, gradualmente, maneiras de reconhecer estados emocionais e necessidades e encontrar recursos que favoreçam a organização.

E, principalmente na infância, isso não acontece apenas de maneira individual.

O adulto participa desse processo.

Ele oferece previsibilidade.

Reduz estímulos quando necessário.

Ajuda a criança a identificar suas necessidades.

Oferece formas de comunicação.

Respeita limites.

Ensina estratégias quando a criança está disponível para aprender.

Esse processo é frequentemente chamado de corregulação: o adulto oferece suporte para que a criança desenvolva, progressivamente, recursos próprios de autorregulação.

Como a educação pode contribuir para esse processo?

Uma abordagem pedagógica individualizada não olha apenas para o conteúdo que a criança precisa aprender.

Ela também considera como aquela criança aprende melhor.

Isso significa observar seu ritmo, seus interesses, suas formas de comunicação, suas necessidades e os fatores que facilitam ou dificultam sua participação.